Manual de Etiqueta… verde?

Entramos na era da sustentabilidade de verdade? O Manual de Etiqueta da Planeta Sustentável, publicado pela Abril e por mais uma pá de gente, saiu junto com a Veja, com a National Geographic, a Claudia e a Nova Escola, provando que o assunto é quente na imprensa. O manual, mesmo sendo uma cópia na caruda do Manual Live Earth de Sobrevivência ao Aquecimento Global, do David Rothschild, é bacaninha e bem-feito, mas não é tão alarmante quanto poderia (resquíscio da dúvida gerada pelas big playas do mundo sobre o aquecimeno global, talvez?) O importante é que ele talvez seja o primeiro a falar de maneira organizada, e livremente nos maiores veículos de comunicação da Abril, sobre o entrave em que estamos prestes a nos meter.

Mas, peraí.

A Bunge tem o logo estampado na última página desse manual. O que a Bunge tem a dizer sobre sustentabilidade? Não é ela quem ofuscou a agricultura tradicional familiar com silos e equipamentos monstruosos, botou transgênicos na nossa comida sem sabermos, comeu a Amazônia pra plantar soja junto com a rival Cargill e derrubou as nossas florestas – os filtros naturais do nosso planeta, que ajudariam a evitar o aquecimento global? Agindo assim, ela praticamente escreveu os fatos que levaram a publicar um manual. Não sozinha, claro. Mas, agora ela se redimiu depois da moratória da soja, rezou 3 Ave Marias e se converteu ao movimento sustentável?

Não que isso seria ruim – apesar da hipocrisia, é justamente isso que a Bunge e comparsas de peso como a E$$O e a Shell deveriam fazer: trabalhar por um mundo sustentável, limpo, eficiente e equilibrado. Tudo bem, lançar uma verba na mão da Abril pra eles escreverem um manual é memorável (não é nada fácil arrancar um tostão de qualquer corporação), mas que tal agir pró-ativamente e parar de dar motivo pra escreverem manuais de sustentabilidade? Queimar a Floresta Amazônica pra plantar soja transgênica é pedir pra ser o responsável pelas atitudes que deveriam ser tomadas nas 33 dicas de “como enfrentar o aquecimento global e outros desafios da atualidade”.

E, se o assunto é quente na imprensa, ele é quente no mercado, e acho que é aí onde as grandes corporações estão vendo um verdadeiro aquecimento global: pintar-se de verde pode ser o negócio do momento, é aí onde vai estar o dinheiro. E, mesmo que não seja, não se pintar de verde é dar margem pro eco-concorrente ganhar a simpatia do público. A seriedade das mudanças climáticas é bussiness, é a nova bandeira da empresa moderna. E isso esconde o fato de que um manual de etiqueta não resolve o problema. Não é possível separar orçamento pra mudar o processo produtivo de uma empresa, o consumo de energia em que isso implica, o impacto que o produto final gera direta e indiretamente no planeta, mas toda a verba que é necessária pra DIZER ao público que se faz tudo isso, ou que se investe em projetos sócio-ambientais como compensação, não falta nunca.

Minha dica: se o povo descobrir que a eco-mania é uma bela duma tendência do mercado, uma febre lucrativa pra um bando de inconsequentes, a discussão sobre o aquecimeno global vai cair em desgosto e perder credibilidade diante do mundo. Isso vai foder com a nossa chance de amenizar as consequências das alterações no clima pras gerações futuras. É a maior prova de egoísmo que poderíamos dar pra história. Daria até pra escrever um manual de etiqueta.

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1 Comentário »

  1. […] que eu queira me comparar a Weyler, mas eu também já tinha me perguntado sobre isso quando li o Manual de Etiqueta da Planeta Sustentável (que tem entre seus parceiros a Bunge, […]

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