Entalado na garganta

Há pouco tempo, em duas ocasiões diferentes, ouvi as seguintes frases:

1) “Você sabe, a Lei Cidade Limpa é extremamente impopular”

e

2) “Esse negócio de caos, de clima aí que todo mundo tá falando, isso é coisa da esquerda, pra justificar a ação”

Me arrependo profundamente de não ter me metido nos papos dos sujeitos, mesmo pagando de mala.
Como vacilei, vou usar deste espaço pra dizer o que devia e não disse.

1) Eu não tenho nenhuma informação sobre a popularidade da Lei, mas sei muito sobre a necessidade dela. Anúncio demais por aí, informação em excesso, sugestões sutis entrando na cuca sem nosso consentimento o tempo todo só é bom pra um tipo de pessoa: o marketeiro. A mídia ocupou o espaço público de São Paulo de uma forma em que era impossível passar ileso por uma mensagem publicitária, mas a exagerada quantidade de painéis, outdoors, logotipos e faixas nunca foi o maior problema – é o que esses troços escreviam nos nossos cérebros sem nos darmos conta o que realmente faz mal. Desde que nos entendemos por mundo civilizado, nunca o ser humano comum recebeu tanta informação diária vinda das mais diferentes fontes, todas com um único objetivo: show me the money! O padrão de desejo, de consumo, de necessidade da sociedade em que vivemos hoje é ditado pela mídia agressiva E excessiva. Eu espero de verdade que o Kassab tenha tido conhecimento desses fatos quando assinou a Lei, porque o pugilista corre o risco de se reeleger. O que talvez seja realmente impopular na Lei Cidade Limpa sejam os bolivianos. Centenas deles, arrisco até milhares. Todos revelados por detrás das placas e outdoors que foram removidos, trabalhando ilegalmente e em péssimas condições nas lojinhas do Centro, sob o comando de coreanos que já viveram a mesma experiência nas mãos de chineses (hoje em situação financeira favorável). Não creio que esse seja o tipo de coisa de grande popularidade, realmente. É a única maneira de enxergar a Lei como impopular.

2) A tal “ação” que o sujeito mencionou pode mudar o contexto da frase (eu estava num cartório resolvendo uma burocracia, e os dois caras passaram pela fila mas não escutei o restante). Ainda assim, dizer que os DIVERSOS alertas sobre o aquecimento global são coisa da esquerda não faz a menor diferença, contanto que isso também seja coisa da DIREITA, do CENTRO, ou de qualquer outra direção ou partido político, já que acima de ser qualquer coisa, o “negócio do caos do clima” é PREOCUPANTE e precisa ser levado a sério. O clima da Terra muda sim, em períodos alternados e independentemente da presença humana, mas o fato é que nós demos início ao processo de uma dessas mudanças involuntariamente, ao entupir a atmosfera com CO2 e queimar os únicos mecanismos mais próximos de um “filtro natural” do planeta – as nossas florestas. Os acordos climáticos mundiais devem ser respeitados e considerados prioridades nos governos de qualquer nação de hoje, seja ela de tendências esquerdistas, direitistas, liberais ou Bushianas. Continuar a enxergar a crise climática como bandeira de uma filosofia política e não como emergência global não ajuda em nada.

Ufa.
Foi um alívio.
Obrigado.

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1 Comentário »

  1. boa, salomon,
    só um detalhe: “informação em excesso” aonde? pra mim aquilo chama poluição visual, nunca informação, nem em excesso nem em bom tamanho!
    abraço

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